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domingo, 21 de agosto de 2011

Para começo de conversa - 2 21/08/2011

Amigos e amigas, pessoas conhecidas e desconhecidas tiveram a curiosidade de acessar este blog na sua primeira exposição pública ontem (20/08/2011). Mandaram-me mensagens e comentários particulares. Alguns informaram que estão indicando para outros a leitura deste crítica & afago. Seis mensagens de leitores me chegaram do exterior. Surpreenderam-me amigos e conhecidos, ou que passeiam ou se dedicam a aprimoramento de estudos em países estrangeiros. O traço comum de todos é a preocupação com assuntos e temas relevantes brasileiros, que dizem respeito à cidadania. Portanto, agradeço a atenção, o carinho e a receptividade.

Aos tantos que me escreveram, aos que exercem a política e cargos públicos ou eletivos, digo-lhes que o meu compromisso é com a justiça, com a integridade, honra e dignidade; com responsabilidade, seriedade e nobreza; com a honestidade e transparência como a política deve ser exercida. Não fosse essa razão, o blog crítica & afago poderia não ter sido criado. Este mural público também merecerá observação quanto ao comportamento da imprensa, dos veículos midiáticos que não estejam afinados com fatos e a notícia isenta, por estarem atrelados ao "jornalismo chapa branca", oficial. Esse é o perfil dramático e emblemático na região que habito, no interior de São Paulo, o Vale do Paraíba.

O artigo de hoje

Existem questões de maior grandeza, por certo, de natureza e interesse universal. Pois, hoje, exponho importante artigo do sociólogo Elimar Pinheiro do Nascimento, diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília. Ele tem formação e pós-graduação em universidades da França, viveu e desenvolveu trabalhos em países africanos e participou de governos e no assessoramento de políticos brasileiros sérios, íntegros.

O pernambucano Elimar é meu amigo. Partilhamos a classe ginasial no Colégio São Pedro, em Porto Alegre - RS. Lembro-me dele como orador potente, de dar inveja. Sensível e afavelmente contundente, emocionava. Cativava colegas e plateia com o seu discurso lúcido e engajado. Considero-o um estudioso aplicado e pensador brasileiro que sabe instigar. No seu currículo há inúmeros trabalhos políticos e sociológicos publicados. Presentemente ele aprimora estudos nos Estados Unidos, depois de uma passagem pelo Canadá. Mantemos contato aproximado por e-mail. Num deles me informou do seu artigo "A democracia sobreviverá ao século 21?", publicado na edição de 30 de maio deste ano, no jornal Correio Braziliense. Pois é este artigo do sociólogo Elimar Pinheiro do Nascimento que exponho a seguir, para leitura e pensar, com o generoso consentimento do autor.

A democracia sobreviverá ao século 21?


Elimar Pinheiro do Nascimento
Sociólogo.
Diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília


A democracia é uma das mais belas invenções da sociedade moderna. Não é algo completamente novo, com suas raízes encravadas na Grécia Antiga, nem nasceu de repente, resultado de um longo processo social que ocorreu na Europa entre os séculos 18 e 20.

A democracia transformou-se, juntamente com a produção capitalista, no projeto europeu da modernidade, que se disseminou no mundo de maneira desigual. O capitalismo vingou um pouco em toda parte, a democracia encontrou mais resistências. A novidade é que essas resistências parecem crescer hoje em dia. Esse foi um dos temas abordados pela Université Internationale d´Été, em evento que teve lugar em Poitiers, entre 27 e 30 de novembro de 2010, no Espace Mendès France, e que teve sequência em junho deste ano, em Dijon.

A grande pergunta que surgiu naquele seminario foi: democracia conseguirá sobreviver ao século 21? Os cinco principais argumentos que fundamentam a pergunta e alimentam a desconfiança quanto a uma resposta positiva e inequívoca estão relacionados nos parágrafos seguintes.

Primeiro, a capacidade de representação e funcionalidade do espaço político democrático declina. As suas instituições e atores, como os partidos políticos e os governos, não são capazes de responder às demandas de seus povos. Aos poucos, as pessoas se afastam da política, não se reconhecem nos políticos e abominam os governantes. A apatia política se alastra na Europa e nas Américas. No Brasil por ocasião das eleições de 3 de outubro, metade da população declarou que vota apenas porque o voto é obrigatório.

Segundo argumento: diversos povos e culturas do Sul têm enormes dificuldades de se reger sob o regime democrático. O mundo islâmico parece-lhe impenetrável. Com algumas exceções, como a Índia e o Japão, a democracia é uma estranha na Ásia, e igualmente na África, onde ela morre e renasce constantemente. Tem dificuldades também de se consolidar no continente americano. A resistência advém, em geral, de traços culturais de povos nativos que compreendem os processos decisórios, de representação e participação, de maneira distinta.

Em terceiro lugar, há um claro deslocamento, nos países sob regime democrático, do processo decisório do espaço público para o espaço privado. Cada vez mais as verdadeiras decisões residem nas direções das empresas multinacionais que controlam governos, organismos multilaterais e a mídia. As ações no espaço público da política tornam-se cada vez mais ritualísticas, despidas de sentido e eficácia.

Quarto ponto: o espaço da política deixa gradativamente de ser o espaço originário das mudanças sociais. Todo o século 20 foi regido pelas mudanças provocadas pelo (e no) espaço da política, opondo-se ou afirmando a democracia, desde a revolução russa, passando pelo nazismo e a vitória dos aliados em 1945, até as independências africanas nos anos 1960. Esse período encerra-se em 1989 com a queda do muro de Berlim, último acontecimento político de monta do século 20. Desde então, é o espaço das inovações tecnológicas a origem das mudanças sociais — ele cria uma nova noção de tempo e espaço, introduz novos valores e desfaz antigos.

Finalmente, a crise ambiental suscita dúvidas sobre a capacidade de os regimes democráticos implantarem políticas consistentes para enfrentar os riscos das mudanças climáticas. Opinião de um número crescente de intelectuais, entre os quais Hans Jonas e David Shearman. A razão central parece residir no antagonismo entre a temporalidade da dinâmica política e da ambiental. Uma funciona com um parâmetro de meses e a outra de décadas. Uma asseguraria a liberdade e a outra a sobrevivência. Entre as duas opções parece não existir dúvidas quando, tornando-se excludentes, os homens tiverem que optar.

Esses processos, que ocorrem desigualmente nos diversos países, se articularão com força suficiente para extinguir a democracia? E o que poderá vir em seu lugar, caso isso ocorra?